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Recentemente o ensino de História da África tornou-se obrigatório no currículo escolar.  Materiais didáticos com conteúdo exclusivo de História da África, escrito por especialistas no assunto, têm sido desenvolvidos. No entanto, temos que nos perguntar o que os professores – especialmente os que têm mais tempo de profissão – já conhecem sobre, e o que esperam de um ensino de História da África.

Estudos acadêmicos mais recentes têm privilegiado a formação da nação e do Estado brasileiro dentro do chamado Sistema Atlântico Sul.  Deste modo, o Brasil é tido como o produto de um longo processo histórico oriundo de três matrizes civilizatórias diferentes: uma europeia, uma africana, e outra indígena. Já desde a década de 30 aproximadamente, especialmente com Gilberto Freyre em Casa-Grande & Senzala, as diferente matrizes culturais formativas do Brasil são reconhecidas. No entanto, o Brasil é ainda um país profundamente racista, onde o acesso dos negros a determinados ambientes ou condições é dificuldado. Mas então, se as diferentes matrizes culturais são reconhecidas na formação da cultura brasileira, como o Brasil pode ser ainda um país racista? E ainda, o que o ensino de História da África tem a ver com esta questão?

O ensino de história nos níveis fundamental e básico tem uma função social muito grande. Ela constrói personagens marcantes da história, eventos importantes para a construção do Brasil que conhecemos hoje, enfim, ela constrói a ideia de Brasil para o aluno: o que é o Brasil, quem é o brasileiro. De diversas datas e personagens, algumas são eleitas como principais para contar a história da nação. No entanto, por trás de toda escolha deste calibre existe uma ideologia que a orienta. Neste caso, onde estão as personagens negras da história do Brasil? Geralmente, nos manuais voltados para o ensino fundamental e médio, os eventos e personagens negras se concentram na colônia, o momento onde as “raças” (ou etnias, para utilizar um vocabulário mais adequado) se encontram. Sempre relacionados à escravidão, os negros parecem desaparecer da história após a abolição, no fim do Século XIX, salvo raras exceções como a revolta da chibata, por exemplo. A partir deste momento, toda a história do Século XX é contada como se existisse um povo brasileiro único, harmônico e coeso. E sempre branco.

Abordar a história dos afrodescendentes no Brasil a partir de suas contribuições culturais, geralmente resumidas ao samba (música), capoeira (dança), etc, é deixar de lado duas coisas: outras contribuições da matriz africana para a formação da nação brasileira – contribuições que se estendem, em última instância, até uma cultura política – e também a relação complicada entre os negros e brancos ao longo de cinco séculos de história. Por isso os livros de história devem resgatar personagens como Henrique Dias, que comandou um exército de negros contra os holandeses na América Portuguesa e também fez investidas contra Palmares. Devem tratar Palmares não como um ponto de convergência de escravos fugitivos, mas como a reprodução de um Estado africano na América, em um estrutura de Quilombo, espécie de aldeamentos militares que já existiam na África antes dos portugueses. Pensar a relação entre negros e brancos durante a revolta da vacina e, na postura de Getúlio Vargas com os negros em seu projeto de modernização da nação. Enfim, tratar de África e afrodescendentes na sala de aula é mostrar que o negro não trouxe apenas saudade, suor e ginga para o Brasil. Ele trouxe uma forma própria de compreender o mundo, que ajudou a moldar o país que conhecemos hoje. Tratar a história brasileira a partir de suas personagens brancas é desmerecer todo o sofrimento pelo qual passaram (e passam) os negros desse Brasil.

Link: Notícia publicada no jornal O Estado de São Paulo sobre a produção de materiais didáticos sobre História da África: http://www.estadao.com.br/noticias/vida,material-didatico-para-aulas-de-historia-da-africa-deve-ficar-pronto-no-segundo-semestre,702575,0.htm

Link: download da coleção História Geral da Áfricahttp://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/ResultadoPesquisaObraForm.do?first=50&skip=0&ds_titulo=&co_autor=&no_autor=&co_categoria=132&pagina=1&select_action=Submit&co_midia=2&co_obra=&co_idioma=&colunaOrdenar=DS_TITULO&ordem=null

“Porque devemos estudar história? Porque temos que estudar o que já aconteceu?”. Com certeza, grande parte dos professores de história já ouviu essa pergunta daqueles alunos mais atirados. Geralmente, a resposta está na ponta da língua: “estudamos o passado para entender o presente”. Algumas vezes, ainda completam: “e iluminar o futuro”. Confesso que, quando eu era criança, fiz esta pergunta e ouvi esta resposta. Ela não fez o menor sentido para mim. Como estudar eventos que já ocorreram poderia ajudar a entender o presente? Eu mal tinha noção dos tempos. Passado, presente e muito menos futuro.

Eu tive esta dúvida, hoje vejo outras crianças perguntando as mesmas coisas. Existe, portanto, um problema real com o ensino de história: ele não faz sentido aos alunos. Hoje em dia, após todas as transformações pelas quais passou, a história concentra-se nos estudos de estrutura e nas percepções dos processos de mudança. É difícil falar com crianças e adolescentes nestes termos, pois sua capacidade de abstração e experiência de vida é ainda muito pequena. Portanto, o ensino de história deve ser inspirado em pesquisas acadêmicas, mas sem os jargões “científicos”. É preciso desacademicizar os procedimentos de investigação histórica.

A sugestão do Blog é fazê-lo através de temas. Claro que isto não é uma invenção deste aspirante a autor, mas sim resultado de leituras e conversas com amigos e colegas interessados nesta problemática. Deixe-me explicar melhor os tais temas. Eles devem sair do presente, da realidade do aluno, para serem comparados com outros momentos históricos. Atenção! Não devem ser a busca por germes de nossas características, como se elas fossem evoluir em linha reta até nossos dias. Mas antes, tentamos entrar na mentalidade das diferentes sociedades, que habitaram diferentes espaços em diferentes tempos.

Tomemos um exemplo. Geralmente, a Grécia Antiga é estudada da seguinte maneira: 1. Apresentação de seus períodos históricos; 2. Comparação entre Esparta e Atenas; 3. Guerras Médicas; 4. Guerra do Peloponeso; 5. Helenismo (modelo que privilegia o estudo de Atenas e da Democracia, geralmente vendo os gregos como privilegiados ou escolhidos que já tinham um pouco de nossa grandeza). No entanto, porque não a partir de temas? Por exemplo, as relações de gênero. Entendendo como homens e mulheres se relacionavam podemos nos perguntar como era a democracia grega, como era o dia a dia de um grego. E mais: como era sua religião através do papel do feminino nos mitos e nos rituais, o que diziam os teatros gregos, qual a participação das mulheres na guerra a partir do mito das amazonas. Uma infinidade de conteúdos podem ser tratados a partir de um tema, e uma infinidade de temas podem ser levantados para o estudo de história.

Relações de gênero, memória, patrimônio, ciência e tecnologia, história regional, história da alimentação, história do corpo, e muitos outros, todos são elementos possíveis de serem utilizados para se abordar os conteúdos de história. E as diferentes maneiras como estes temas aparecem ao longo da história da humanidade contêm em suas entrelinhas o principal do processo histórico: as transformações e as manutenções de estruturas sociais.

Minha proposta é elaborar infográficos interativos a partir destes conteúdos. Deste modo, aproximamos a realidade do aluno seja no conteúdo – através de temas que dialoguem com seu dia a dia – seja na maneira de se relacionar com o conteúdo – através de ferramentas digitais.

Deste modo, talvez o ensino de história se livre da sucessão de nomes e datas a qual costuma ser vinculado e torne-se algo mais palpável ao aluno. E perguntas sobre a finalidade do ensino de história podem, ao menos, diminuir.

 

Bibliografia sugerida:

PINSKY, Carla Bassanezi. Novos temas nas aulas de história. São Paulo: Contexto, 2009. (Site da Editora Contexto, com informações sobre o livro, onde é possível ler o sumário e a introdução do livro: http://www.editoracontexto.com.br/produtos.asp?cod=402)

PODOLAN, Marli Ossovski. A história temática e a questão da gênero: a mulher na sociedade colonial brasileira. (artigo disponível no endereço http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/portals/pde/arquivos/426-4.pdf?PHPSESSID=2009050416095955)

 

 

 

Copyright 1996 Randy Glasbergen. www.glasbergen.com

Nativos digitais e a escola tradicional: realidades distintas.

Atualmente, algo que não podemos deixar de notar é a negação do jovem à escola. Este “não” que grupos de adolescentes e crianças manifestam cada vez mais intensamente deve ser visto como um fenômeno social complexo, com diversas causas. Aqui, aponto apenas duas, intimamente relacionadas entre si: as práticas de ensino na sala de aula; e a evolução nos meios de comunicação, especialmente a internet.

A grande maioria das salas de aula brasileiras da atualidade funciona da seguinte maneira: um professor em seu tablado despeja “conhecimento” a seus alunos, que disciplinadamente devem anotar e guardar todo o conteúdo. O mesmo conteúdo ensinado a uma mesma turma de alunos deve ser absorvido da mesma maneira por todos, e aqueles com menor desempenho na avaliação final são vistos como menos interessados ou, muitas vezes, como menos capazes.

Fora das salas de aula – não necessariamente fora da escola – alunos têm acesso a ferramentas geralmente vistas com opostas ao material pedagógico: jogos de vídeo game altamente complexos e sofisticados, com gráficos poderosos e enredos envolventes; a internet e a difusão de um conhecimento aparentemente infinito mas muitas vezes de origem duvidosa; etc.

A questão é que quanto mais novos são os alunos, mais habituados são a estas ferramentas. São os chamados nativos digitais. Para eles, os velhos livros em preto e branco e este modelo de aula, pouco interativo e desvinculado de seu dia a dia não são atrativos de maneira alguma. A proposta deste blog é sugerir novas ferramentas para utilização da tecnologia digital na sala de aula, especialmente no ensino de história. Solucionar a negação do jovem à escola é uma tarefa complexa, que exige a atuação de todos os profissionais que realmente se importam com a educação. A associação tecnologia/escola é apenas uma questão a ser trabalhada.

Em posts futuros, colocarei aqui infográficos didáticos, com conteúdo para aulas de história. Os infográficos são ferramentas interativas e altamente visuais, que podem aproximar o conteúdo de história à práticas utilizadas por ele no dia a dia. Minha proposta é problematizar o conteúdo transmitido na sala de aula, trazendo-o para a realidade do aluno, e propor atividades de reflexão, para que o aluno também a aprenda a produzir seu conhecimento, e não apenas recebe-lo do professor.